RiqZora é golpe? O que encontramos sobre a plataforma

Moeda dourada lisa presa a um anzol sobre fundo azul-marinho escuro, representando o saque pequeno usado como isca no golpe da RiqZora

Atualizado em 27 de outubro de 2026. Uma pessoa nos procurou contando uma história que já conhecemos de outras plataformas: um anúncio de curso de ações no Facebook, um grupo de WhatsApp de “estudos de mercado”, “sinais infalíveis” de compra e venda e um aplicativo chamado RiqZora. O lucro aparecia na tela. O dinheiro, não.

Seguimos os depósitos na blockchain, que é pública. A operação é menor do que outras que já mostramos aqui, mas o desenho é o mesmo. Neste artigo você vai entender como ela funciona, o que o rastreio encontrou e o que fazer se você caiu.

Resumo rápido: a RiqZora se apresenta como corretora de criptomoedas e publicou um comunicado pago falando em transparência. Na blockchain, uma única carteira faz duas coisas ao mesmo tempo: recebe o dinheiro das vítimas e paga os pequenos “saques” que servem de isca. De 10 de setembro a 27 de outubro de 2026, ela recebeu dinheiro de dezenas de endereços diferentes, e continua recebendo.

A RiqZora é confiável?

Pelo que vimos, não. Os sinais são concretos:

  • o contato começa num grupo de WhatsApp, com “sinais” de operação que ninguém consegue conferir fora do aplicativo;
  • o “lucro” só existe na tela da plataforma;
  • os “saques” que caem de verdade são pequenos, a maioria de 90 dólares, e servem para ganhar confiança antes dos depósitos maiores;
  • a mesma carteira que recebe o dinheiro das vítimas é a que paga esses saques;
  • o nome aparece na internet num comunicado de imprensa pago, publicado em 26 de outubro de 2026 em nome da própria empresa, e não em reportagens.

Cada sinal, sozinho, poderia ter outra explicação. O conjunto, não: é o roteiro do golpe da falsa corretora de criptomoedas, aqui com uma marca própria, o saque de 90 dólares.

Cópia no Internet Archive do comunicado pago da Riqzora na Pinion Newswire, com o aviso de conteúdo patrocinado e não verificado
O comunicado pago da Riqzora, de 26 de outubro de 2026, preservado no Internet Archive. A própria página avisa que o conteúdo é patrocinado e não foi verificado.

Como o golpe da RiqZora funciona

1. O anúncio e o grupo de “estudos de mercado”. Tudo começa com um anúncio de curso de ações no Facebook. Quem clica vai parar num grupo de WhatsApp com mais de cem participantes, administradores com números de São Paulo e uma “assistente” que chama no privado. O grupo leva o nome de uma suposta gestora estrangeira de investimentos, com site e um suposto fundador.

2. Os “sinais infalíveis”. No grupo, a “assistente” manda sinais de compra e venda. A pessoa executa as operações dentro do aplicativo RiqZora, e o saldo sobe. Só que essas operações não acontecem em mercado nenhum. São números na tela.

3. O pagamento em USDC. Para operar, a pessoa compra USDC, uma criptomoeda que acompanha o dólar, no aplicativo do próprio banco, e envia para o endereço que a plataforma informa.

4. O saque isca. Pouco depois, um saque pequeno cai de verdade, perto de 90 dólares. É a isca: com ele, a pessoa confia e aumenta os depósitos.

5. O saque que não sai. O saque maior não cai. Nesse tipo de golpe, o padrão é aparecer uma nova exigência: taxa, imposto ou depósito para “liberar” a conta. Cada nova cobrança é só uma forma de tirar mais dinheiro.

O que o rastreio na blockchain mostrou

A pessoa que nos procurou recebeu um endereço de depósito que parecia ser só dela. Esse endereço repassou tudo para uma carteira da operação, e foi dessa mesma carteira que vieram os saques isca que ela recebeu. Ou seja: o “lucro” que volta para uma pessoa sai do dinheiro que entra de outros endereços.

Esquema do caminho do dinheiro na RiqZora: depósito, carteira da operação, dinheiro parado e saques pequenos pagos pela mesma carteira
O caminho do dinheiro, resumido, com os dados públicos da blockchain consultados em 27 de outubro de 2026.

De 10 de setembro a 27 de outubro de 2026, essa carteira recebeu dinheiro de dezenas de endereços diferentes, somando cerca de US$ 68 mil em USDC e USDT, e continuava recebendo na noite da nossa consulta. Como cada pessoa recebe um endereço de depósito próprio, o número sugere que há mais pessoas além de quem nos procurou. Na noite de 27 de outubro, cerca de US$ 44 mil ainda estavam parados nessa carteira, sem bloqueio pelas empresas que emitem o USDC e o USDT.

Cópia no Internet Archive da página pública da carteira da RiqZora no Etherscan, com vários endereços enviando USDT no mesmo bloco
A página pública da carteira da operação, preservada no Internet Archive na noite de 27 de outubro de 2026: no mesmo bloco, vários endereços de depósito repassam dinheiro para ela.

Os US$ 44 mil parados são o ponto que mais interessa a quem caiu. Enquanto o dinheiro está numa carteira conhecida, ele pode ser alvo de um pedido de bloqueio, normalmente feito dentro de uma investigação criminal. Bloqueio não é devolução, e a diferença está explicada no artigo sobre o que a Tether pode fazer e por que congelar não é devolver, que vale também para o USDC.

Atenção aos endereços parecidos. O endereço de depósito que analisamos recebeu envios de um “USDC” de imitação, vindos de endereços com o começo e o fim iguais aos verdadeiros. É uma armadilha para quem copia endereço do histórico. Na próxima transferência, confira o endereço inteiro.

E o banco, não devolve?

Na RiqZora, a pessoa comprou USDC no aplicativo do banco e mandou para o endereço da plataforma. Para o banco, foi uma compra feita pelo próprio cliente, e não um Pix para um golpista, por isso o MED não entra. A resposta do banco não é o fim da linha: os caminhos passam pelas empresas que guardam os dados da operação e pela investigação.

Caí no golpe da RiqZora. O que dá para fazer?

Saber quem está por trás. A operação passou por empresas que têm cadastro: o WhatsApp, onde estão o grupo de “estudos de mercado”, os administradores e a “assistente”; a Meta, que exibiu o anúncio do curso de ações; e, se o app foi baixado numa loja oficial, a conta de quem o publicou. A quebra de sigilo de dados pede ao juiz que essas empresas revelem esses dados, com base no Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014). Pelo artigo 15, os registros de acesso precisam ser guardados por seis meses: para acessos de outubro de 2026, o prazo mínimo vai até abril de 2027. O uso das informações está em dados obtidos com a quebra de sigilo.

A investigação. Como a carteira ainda tinha dinheiro parado quando consultamos, registrar o boletim cedo faz diferença. É no inquérito que se pode pedir o bloqueio desse saldo, que aqui é dinheiro misturado de vários endereços e, por isso, depende da investigação.

Se você ainda está no grupo, faça isto agora

  • Recebeu um “saque” de cerca de 90 dólares? Guarde o comprovante: ele mostra de qual carteira o dinheiro saiu e liga você a essa operação.
  • Não faça depósito para “liberar” o saque maior. Nenhuma taxa ou imposto devolve o que está na tela.
  • Salve os “sinais” do grupo com data e horário, e a lista de participantes com os números aparecendo.
  • Guarde o extrato da compra de USDC no banco e o endereço para onde você enviou.
  • Registre o boletim de ocorrência citando a RiqZora pelo nome. O passo a passo do boletim de golpe online ajuda.

Conclusão

A RiqZora é pequena perto de outras operações que já mostramos, e é justamente por isso que vale olhar agora: a carteira ainda recebia dinheiro e ainda guardava saldo quando a consultamos. O saque de 90 dólares, que parece prova de que a plataforma paga, é o que liga quem o recebeu à mesma carteira.

Se a RiqZora entrou na sua vida por um grupo de WhatsApp, pare os depósitos, junte as provas e veja qual caminho cabe no seu caso. A nossa equipe atende pelo WhatsApp (34) 9 9644-6050.

Raphael Souza, advogado, OAB/MG 130.203, Raphael Souza Advocacia.

Este artigo tem finalidade informativa e não constitui promessa de resultado. As informações sobre o caminho do dinheiro foram obtidas em registros públicos da blockchain (Ethereum), consultados em 27 de outubro de 2026; as de divulgação, em páginas públicas na mesma data, preservadas no Internet Archive. O caso que nos chegou foi descrito sem nome e sem valores.