Atualizado em 28 de outubro de 2026. Nas últimas semanas, pessoas de cidades diferentes procuraram nosso escritório com a mesma história: um anúncio sobre mercado de ações, um grupo de WhatsApp com o nome Zorveniq, aulas de um “professor”, uma “assistente” atenciosa no privado e um aplicativo chamado Nyveriq. O saldo crescia na tela, às vezes passando de milhões. Na hora de sacar, vinha a cobrança de uma “taxa do fundo”.
Seguimos o dinheiro na blockchain, que é pública. O resultado mostra uma operação grande. Neste artigo você vai entender como o golpe funciona, o que o rastreio encontrou e quais caminhos existem para quem caiu.
Resumo rápido: o Nyveriq esteve na App Store descrito como app “educativo” e, em 28 de outubro de 2026, não aparecia mais na loja. A operação se apresenta como Zorveniq Capital, e há duas empresas registradas no Colorado no mesmo dia, 12 de julho de 2026: a Zorveniq Capital Ltd e a Nyveriq Blockchain Group Ltd. Na blockchain, uma única carteira da operação recebeu dinheiro de 591 endereços de depósito diferentes de 8 de setembro a 21 de outubro de 2026, somando US$ 3,36 milhões. Depois disso, essa carteira parou de receber e foi esvaziada, o que não quer dizer que a operação acabou.
O Nyveriq é confiável?
Pelo que vimos, não. Os sinais se repetem em todos os casos que chegaram até nós:
- o lucro só existe na tela, e o saque sempre esbarra numa nova cobrança, a “taxa do fundo” de 20%, que precisa ser paga com dinheiro novo;
- quem não tem o dinheiro recebe a oferta de um “empréstimo” da própria plataforma;
- quando ainda estava na App Store, o app tinha média de 1,4 de 5 nas avaliações, com títulos como “Puro golpe” e “Fraude”;
- o dinheiro de todas as vítimas cai na mesma carteira, como mostramos abaixo.
É o desenho clássico do golpe da falsa corretora de criptomoedas.
Como o golpe do Nyveriq funciona
1. O anúncio e o grupo Zorveniq
Tudo começa com um anúncio no Facebook ou no Instagram, de uma página sobre mercado de ações, às vezes usando a foto de um influenciador de finanças conhecido. Quem clica vai parar num grupo de WhatsApp com o nome Zorveniq, com mais de cem participantes, um “professor” que dá aulas e uma “assistente”.
Um detalhe chama atenção: dezenas desses “alunos” têm números de telefone em sequência. É cara de linhas compradas em lote. A plateia que comemora os lucros no grupo é, em boa parte, montada.
2. O grupo VIP e o aplicativo
Depois de algumas semanas, a “assistente” chama no privado e convida para um grupo VIP, um “plano pioneiro” com número de inscrição. Nesse grupo só estão a vítima e os operadores. É ali que vem a indicação do aplicativo Nyveriq.
3. O pagamento
A pessoa compra USDC, uma criptomoeda que acompanha o dólar, no aplicativo do próprio banco, ou bitcoin numa carteira digital, e envia para o endereço que o Nyveriq informa. Para a vítima, parece uma operação comum.
4. O saldo que cresce e a taxa para sacar
Na tela, o saldo cresce rápido. Na hora de sacar, aparece a condição: pagar a “taxa do fundo” de 20%. Há relatos, nas avaliações da loja, de uma “pontuação” mínima exigida para o saque, que cai depois de cada depósito. E quem não tem como pagar recebe a oferta de um “empréstimo”. Cada nova exigência é só uma forma de tirar mais dinheiro.
Quem é o Nyveriq
A operação se apresenta como Zorveniq Capital, registrada no Colorado, nos Estados Unidos. Conferimos na base oficial de empresas do Colorado: há uma Zorveniq Capital Ltd e uma Nyveriq Blockchain Group Ltd, registradas no mesmo dia, 12 de julho de 2026, pelo mesmo agente de registro. Registro de empresa não é autorização para nada: abrir uma empresa por lá é simples, e o registro não diz se ela opera legalmente.
O aplicativo esteve na App Store descrito como ferramenta de aprendizado sobre criptomoedas, com o aviso de que “não é uma plataforma de negociação”. É uma forma comum de passar pela revisão da loja. Em 28 de outubro de 2026, ele não aparecia mais na loja. Ter estado na loja oficial não garantia nada sobre quem está por trás do app, mas é também uma pista: quem publica um aplicativo tem uma conta de desenvolvedor, com cadastro e forma de pagamento.

O que o rastreio na blockchain mostrou
O USDC circula em blockchain pública. Todo envio fica registrado e pode ser seguido, carteira por carteira. Foi o que fizemos com os depósitos das pessoas que atendemos, conferindo cada comprovante com o registro na rede.
Uma única carteira recebe o dinheiro de todo mundo
Cada vítima recebe um endereço de depósito que parece exclusivo. Só que todos esses endereços se esvaziam na mesma carteira, a carteira coletora. De 8 de setembro a 21 de outubro de 2026, ela recebeu dinheiro de 591 endereços de depósito diferentes, somando US$ 3,36 milhões, perto de R$ 17 milhões. Depois disso, ela parou de receber e foi esvaziada.
Para onde o dinheiro vai
Da coletora, o dinheiro passa para uma carteira distribuidora, que espalha os valores em lotes. Parte é trocada por outras criptomoedas em serviços automáticos, sem cadastro. Parte paga os “saques isca” das próprias vítimas. E parte foi parar em endereços de depósito de corretoras internacionais.

Esse último ponto é o mais importante. Corretora tem o cadastro, com documento, de quem abriu a conta. Quem está por trás do golpe não é tão anônimo quanto parece. Explicamos esse raciocínio no artigo o dinheiro caiu numa corretora: dá para descobrir quem recebeu?
O envenenamento de endereço
Mesmo depois de esvaziada, a coletora do Nyveriq continua aparecendo em registros falsos: transferências de moedas de imitação, com nomes como “USDC” e “ETH”, envolvendo endereços que copiam o começo e o fim dos verdadeiros. É isca para quem copia endereço do próprio histórico. Antes de qualquer envio, confira o endereço caractere por caractere.
O banco disse que não pode fazer nada
É a resposta mais comum, e tem explicação. No Nyveriq, o dinheiro saiu como compra de USDC no banco, ou como bitcoin de uma carteira digital, e não como Pix para um golpista. O mecanismo de devolução do Pix (MED) não cobre esse tipo de operação. A recusa do banco não fecha o caso: só mostra que os caminhos estão em outro lugar.
Caí no golpe do Nyveriq. O que dá para fazer?
Descobrir quem estava do outro lado
O Nyveriq deixou rastros em empresas que guardam cadastro. O app foi publicado na App Store, e a Apple tem a conta de quem o publicou, mesmo depois de ele sair da loja. O grupo Zorveniq e os números do “professor” e da “assistente” estão no WhatsApp. O anúncio que levou ao grupo passou pela Meta. E parte do dinheiro chegou a corretoras, que pedem documento para abrir conta. A quebra de sigilo de dados é a ação em que se pede ao juiz que essas empresas entreguem esses dados, com base no Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014).
Aqui o relógio conta. Pelo artigo 15 do Marco Civil, os registros de acesso precisam ser guardados por seis meses. Para acessos de setembro de 2026, esse prazo mínimo termina em março de 2027. Depois disso, a empresa pode não ter mais o que entregar. O que se faz com as informações está em dados obtidos com a quebra de sigilo.
A via criminal
Quinhentos e noventa e um endereços de depósito numa só carteira sugerem centenas de pessoas na mesma situação. Para a polícia, isso pesa: vários boletins apontando o mesmo app e o mesmo grupo mostram uma organização, e não um caso isolado. É dentro do inquérito que se pedem medidas como o bloqueio de valores, que aqui dependeria de investigação, porque o dinheiro de todos passou misturado pela mesma carteira.
Se você ainda está no grupo, faça isto agora
- Não pague a “taxa do fundo” de 20% nem aceite o “empréstimo”. O empréstimo é só outra forma de você colocar mais dinheiro na operação.
- Se o app ainda abre no seu celular, tire print de tudo agora: saldo, histórico de depósitos, pedidos de saque e as conversas com o suporte. Como o Nyveriq saiu da App Store, ele pode parar de funcionar a qualquer momento.
- Guarde o convite do grupo VIP e o seu número de inscrição no “plano pioneiro”, com a lista de participantes e os números aparecendo.
- Junte os comprovantes do banco ou da carteira digital de cada envio. São eles que ligam você ao registro na blockchain.
- Registre o boletim de ocorrência citando Nyveriq e Zorveniq pelo nome. O passo a passo do boletim de golpe online ajuda.
Conclusão
O Nyveriq movimentou muito dinheiro em pouco tempo: US$ 3,36 milhões passaram por uma única carteira em pouco mais de seis semanas e, poucos dias depois de essa carteira parar, o app já não aparecia na loja. Sair da loja não apaga o que ficou registrado: a conta de quem publicou o app, os números do grupo, o anúncio e as corretoras que receberam parte do dinheiro.
Se você passou pelo grupo Zorveniq ou usou o Nyveriq, pare os envios, guarde as provas enquanto o app ainda abre e veja qual caminho cabe no seu caso. A nossa equipe atende pelo WhatsApp (34) 9 9644-6050.
Raphael Souza, advogado, OAB/MG 130.203, Raphael Souza Advocacia.
Este artigo tem finalidade informativa e não constitui promessa de resultado. As informações sobre o caminho do dinheiro foram obtidas em registros públicos da blockchain (Ethereum), consultados em 21 e 28 de outubro de 2026; os dados das empresas, na base oficial de empresas do estado do Colorado; e os do aplicativo, na App Store, com cópia preservada no Internet Archive em 22 de outubro de 2026. Os casos citados são reais e foram descritos sem nomes e sem valores individuais.

